Checagem · Economia, trabalho e políticas sociais · Atuação parlamentar dos filhos
Na Câmara, Eduardo Bolsonaro disse que a recuperação do Brasil pós-covid era "muito melhor" que a de Espanha, França, Japão e Alemanha; com os dados da época, o PIB brasileiro estava mais perto do nível pré-pandemia que o dos quatro
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Verdadeiro
Com os dados divulgados até a data da fala, a comparação se sustenta no indicador que a estatística internacional da época usava para medir a recuperação: a distância do PIB em relação ao nível pré-pandemia. No 2º trimestre de 2021, o PIB do Brasil estava 0,1% abaixo do 4º trimestre de 2019, segundo o IBGE; o do Japão, 1,5% abaixo; os de França e Alemanha, cerca de 3,3% abaixo, segundo a OCDE; e o da Espanha, cerca de 8,4% abaixo, segundo o INE. O deputado não indicou o indicador. Em medidas de repique, como a variação sobre o mesmo trimestre de 2020, Espanha e França cresciam mais que o Brasil, porque tinham caído mais; essas medidas não indicam quanto do terreno perdido foi recuperado, e a OCDE chamava de "recovery rates" a distância ao nível pré-pandemia. Há ressalvas que não mudam o veredito para a data: "muito melhores" é qualificação, e a vantagem sobre o Japão era de 1,4 ponto; o PIB brasileiro estava estagnado no trimestre (−0,1%); e as revisões posteriores mudaram parte do quadro, porque nos dados atuais da OCDE o Japão estava 1,2% acima do nível pré-pandemia no 2º trimestre de 2021 e a Alemanha, 0,2% abaixo, praticamente empatada com o Brasil.
A afirmação
“com números muito melhores na recuperação econômica pós-COVID do que Espanha, França, Japão e Alemanha”
Contexto
Na Ordem do Dia de 07/10/2021, depois de defender a empresa offshore do ministro Paulo Guedes, o deputado disse: "Agora, os nossos opositores, quando enxergam a economia nacional ir de vento em popa, com números muito melhores na recuperação econômica pós-COVID do que Espanha, França, Japão e Alemanha, o que eles fazem? Tentam atacar e voltam as suas baterias contra a economia." O deputado não indicou indicador nem período. "De vento em popa" é qualificação e não foi checada. As outras afirmações da fala (compras de vacinas e empregos) não foram examinadas nesta checagem.
O que foi verificado
Com os dados divulgados até 07/10/2021, a recuperação econômica pós-covid do Brasil era melhor que a de Espanha, França, Japão e Alemanha? Como o deputado não indicou indicador, quais leituras são razoáveis, qual delas corresponde a "recuperação" e o veredito muda entre elas?
Método
(1) Delimitação da frase na nota taquigráfica (declaração ligada). (2) Indicador escolhido, por ser o usado pela OCDE para medir a recuperação: variação do PIB real dessazonalizado entre o 4º trimestre de 2019 e o 2º trimestre de 2021, o último disponível para os cinco países na data. (3) Versão da época: IBGE (fascículo das Contas Nacionais Trimestrais de 01/09/2021, índice com ajuste sazonal), OCDE (comunicado de 30/08/2021, coluna de crescimento acumulado desde o 4º tri de 2019, para França, Alemanha e Japão) e INE da Espanha (comunicado de 23/09/2021, taxas trimestrais encadeadas). (4) Versão atual: taxas trimestrais da OCDE (consulta SDMX de 14/10/2026), encadeadas até o 2º e o 3º tri de 2021. Cálculo em scratchpad/lote6-checagens/scripts/pib.mjs; dados em dados/brutos/chk-eduardo-2021-10-07-camara-pib-recuperacao/. (5) Leituras alternativas, calculadas com as taxas trimestrais da OCDE (versão atual) por scratchpad/lote6p-vereditos/pib-leituras.mjs e, quando havia dado da época, com os comunicados: (a) distância ao nível pré-pandemia (4º tri de 2019); (b) variação interanual e crescimento desde o vale (2º tri de 2020), que medem o tamanho do repique; (c) crescimento em 2021 até o 2º tri. (6) Critério de escolha da leitura: "recuperação" foi lida no sentido usado pela estatística oficial internacional da época, que chama de "recovery rates" a variação em relação ao 4º tri de 2019 (OCDE, comunicado do G20 de 15/09/2021); medidas de repique crescem mecanicamente com a profundidade da queda e não indicam quanto do terreno perdido foi recuperado. Critério do veredito: "verdadeiro" se, nos dados da época, o Brasil estivesse à frente dos quatro países na leitura (a); as demais leituras e as revisões posteriores entram no resultado; "inconclusivo" só se as leituras razoáveis de "recuperação" divergissem sem que a fonte da época indicasse qual corresponde ao termo.
Achados
- Fato documentado
Palavras exatas, com o contexto imediato: depois de defender a empresa no exterior do ministro Paulo Guedes, o deputado diz que "os nossos opositores, quando enxergam a economia nacional ir de vento em popa, com números muito melhores na recuperação econômica pós-COVID do que Espanha, França, Japão e Alemanha", "voltam as suas baterias contra a economia". Mais adiante, fala separadamente de empregos ("já geramos mais empregos do que o número das demissões geradas pela COVID") e conclui: "Então, vejam que o Brasil vai indo muito bem na recuperação econômica." Não há indicador nem período; a comparação com os quatro países está ligada à "economia nacional", não à frase sobre empregos; "muito melhores" e "de vento em popa" são qualificações.
- Fato documentado
Brasil, dado da época: o índice do PIB com ajuste sazonal era 171,6 no 4º tri de 2019 e 171,4 no 2º tri de 2021, variação de −0,1%; o IBGE registrou −0,1% no 2º tri de 2021 sobre o 1º.
- primáriaftp.ibge.gov.brfichaTabela 6, coluna PIB pm; Tabela I.2
- Fato documentado
França, Alemanha e Japão, dado da época (OCDE, 30/08/2021): no 2º tri de 2021, o PIB estava 3,3% abaixo do nível do 4º tri de 2019 na França e na Alemanha e 1,5% abaixo no Japão. No comunicado do G20 de 15/09/2021, a taxa do Japão no 2º tri foi revisada de 0,3% para 0,5%, o que reduz ligeiramente essa distância.
- primáriaInternet Archive — Wayback Machine (captura de 30/08/2021)ficha§ 5 e tabela "Quarterly Real GDP growth", coluna "cumulative growth Q4-2019 to Q2-2021"
- primáriaInternet Archive — Wayback Machine (captura de 16/10/2021)ficha§ 3
- Fato documentado
Espanha, dado da época (INE, 23/09/2021): taxas trimestrais de −5,4%, −17,7%, 16,8% e 0,2% em 2020 e de −0,6% e 1,1% em 2021; encadeadas, o PIB do 2º tri de 2021 ficava 8,4% abaixo do 4º tri de 2019.
- Fato documentado
Versão atual (OCDE, 14/10/2026), variação entre o 4º tri de 2019 e o 2º tri de 2021: Brasil −0,1%; Espanha −6,6%; França −2,4%; Alemanha −0,2%; Japão +1,2%. Até o 3º tri de 2021, divulgado depois da fala: Brasil +0,1%; Espanha −4,8%; França +0,5%; Alemanha −0,1%; Japão +1,0%.
- primáriasdmx.oecd.org (API SDMX)fichamedida G1, ADJUSTMENT = Y, 2020-Q1 a 2021-Q3; encadeamento feito nesta pesquisa
- Fato documentado
Uso do termo na época: o comunicado do G20 da OCDE de 15/09/2021 compara o PIB do 2º tri de 2021 com o nível pré-pandemia (4º tri de 2019) e chama essa variação de "recovery rates" (China 8,2% e Turquia 8,8%, "the highest recovery rates"); o comunicado de 30/08/2021 usa a mesma comparação ("GDP still lags behind" o nível do 4º tri de 2019). O comunicado de 15/09 também revisou a taxa da França no 2º tri de 0,9% para 1,1%, o que reduz a distância francesa para cerca de −3,1%, sem alterar a ordem.
- Fato documentado
Leituras alternativas. Variação interanual no 2º tri de 2021 (igual ao crescimento desde o vale do 2º tri de 2020): na época, Brasil 12,4% (IBGE) e Espanha 17,5% (INE); na versão atual da OCDE, Brasil 12,3%, Espanha 19,8%, França 17,1%, Alemanha 11,6% e Japão 8,7%; nessa leitura o Brasil fica atrás de Espanha e França. Crescimento em 2021 até o 2º tri, encadeando as taxas trimestrais dos comunicados da época: Brasil 1,1% (1,2% e −0,1%), França 1,1% (0,0% e 1,1% revisado), Espanha 0,5%, Alemanha −0,4% e Japão −0,6% (−1,1% e 0,5% revisados); na versão atual, Brasil 0,2%, o menor dos cinco. Na leitura (a), a da época e a das fontes oficiais, o Brasil aparece à frente dos quatro.
- primáriaftp.ibge.gov.brfichaTabela "Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior", PIB a preços de mercado, 2021.II
- primáriaine.esficha"Principales resultados" e gráfico de taxas intertrimestrais
- primáriaInternet Archive — Wayback Machine (captura de 30/08/2021)ficha§ 3 (taxas trimestrais de França, Alemanha e Japão)
- primáriaInternet Archive — Wayback Machine (captura de 16/10/2021)ficha§§ 2–3 (Brasil −0,1% após 1,2%; França 1,1%; Japão 0,5% após −1,1%)
- primáriasdmx.oecd.org (API SDMX)fichamedida G1, ADJUSTMENT = Y, 2020-Q1 a 2021-Q2; encadeamento feito nesta pesquisa
- Análise editorial
Com os dados disponíveis na data, o Brasil estava à frente dos quatro países no retorno ao nível pré-pandemia: 1,4 ponto acima do Japão, 3,2 pontos acima de França e Alemanha e 8,3 pontos acima da Espanha. As revisões posteriores alteraram a comparação: hoje o Japão aparece acima do Brasil e a Alemanha praticamente empatada. O veredito muda conforme a leitura: na distância ao nível pré-pandemia, o Brasil estava à frente; nas medidas de repique (interanual, desde o vale), atrás de Espanha e França, porque estas caíram mais e por isso subiram mais. A fonte estatística da época resolve qual leitura corresponde a "recuperação": a OCDE chama de "recovery rates" justamente a distância ao 4º tri de 2019. Por isso o veredito não depende de uma interpretação que as fontes deixem em aberto, e "inconclusivo" não se aplica.
Sem evidência vinculada — não publicar.
Limitações
O deputado não especificou indicador nem período; foram usados a distância ao nível do 4º trimestre de 2019 e o último trimestre disponível. As taxas espanholas da época foram lidas nos rótulos de um gráfico do INE e conferidas com as taxas interanuais do texto. A tabela da OCDE de 30/08/2021 foi lida em extração de texto desalinhada, com os valores atribuídos pela ordem das linhas e conferidos com o texto do comunicado. A versão atual vem da OCDE, que pode diferir das estatísticas nacionais mais recentes. O texto da fala é a nota taquigráfica sem revisão do orador. Indicadores de mercado de trabalho (desemprego, ocupação) não foram comparados entre os cinco países: a frase liga a comparação à "economia nacional", e a afirmação sobre empregos, feita em seguida e sem comparação internacional, não foi checada. As leituras alternativas de França, Alemanha e Japão na variação interanual usam só a versão atual da OCDE; na época, só as de Brasil e Espanha foram lidas.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Não foi localizada, nas fontes consultadas, manifestação posterior do autor indicando o indicador usado. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.