Checagem · Meio ambiente, desmatamento e povos indígenas · Relações internacionais e diplomacia
Na ONU, Jair Bolsonaro atribuiu os incêndios na Amazônia a roçados do "caboclo e o índio"; terras indígenas tiveram 7% dos focos em 2019 e cerca de 8% a 9% em 2020, e estudos ligam o fogo ao desmatamento
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Enganoso
A frase mistura um elemento verdadeiro com uma atribuição que os dados não sustentam. É verdade que o fogo na Amazônia é de origem humana e ocorre sobretudo em áreas já desmatadas: pesquisadores do INPE estimavam, antes do discurso, que o desmatamento explicava metade das queimadas nos estados amazônicos no início de 2020. Mas o fogo não estava concentrado onde indígenas e populações tradicionais fazem roçados. De 1º de janeiro a 21 de setembro de 2020, só 9,0% dos focos do bioma estavam dentro de terras indígenas (7,9% no ano). Em 2019, segundo o IPAM, eram 7%, contra 31% em propriedades privadas, 21% em assentamentos e 30% em terras públicas não destinadas ou sem cadastro. A nota indicava como motores o desmatamento, a limpeza de pastagens e a ocupação ilegal de terras públicas. Nenhuma fonte lida mede a participação de "caboclos", que não são categoria cadastral.
A afirmação
“onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.”
- primáriaFundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) — gov.br, "Política Externa Brasileira - 2020" (publicado em 09/11/2021)fichatrecho após "Nosso agronegócio continua pujante" até "em áreas já desmatadas"
Contexto
Discurso de abertura do Debate Geral da 75ª Assembleia Geral da ONU, 22/09/2020, na época de maior número de focos de queimada do ano. Depois de dizer que o país é vítima de "uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal", o presidente afirma: "Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas." Em seguida trata do combate aos focos e das queimadas no Pantanal. A passagem contém três alegações verificáveis, separadas em três checagens: a de que o fogo não se propaga no interior da floresta (chk-jair-2020-09-22-onu-floresta-umida-fogo-interior), a localização dos incêndios no "entorno leste" (chk-jair-2020-09-22-onu-incendios-entorno-leste) e a autoria e o tipo de área (chk-jair-2020-09-22-onu-incendios-caboclo-indio).
O que foi verificado
Os focos de queimada na Amazônia em 2019 e 2020 estavam principalmente em terras de indígenas e de populações tradicionais, ligados a roçados de subsistência? E ocorriam em áreas já desmatadas?
Método
(1) Delimitação da frase no texto oficial (FUNAG), conferido na declaração ligada. (2) Dados oficiais: focos do satélite de referência do INPE em 2020 no bioma Amazônia, cruzados com os polígonos de terras indígenas da camada atual da FUNAI (ponto em polígono, script scratchpad/lote6-checagens/scripts/focos-2020.mjs), de 01/01 a 21/09/2020 e no ano. (3) Distribuição por categoria fundiária disponível antes do discurso: nota técnica do IPAM de abril de 2020 (focos de 2019) e, como confirmação posterior, nota técnica do IPAM de março de 2021 (2019 e 2020). (4) Relação entre fogo e desmatamento: nota técnica de pesquisadores do INPE e do Cemaden (maio de 2020). "Caboclo" não corresponde a nenhuma categoria fundiária ou cadastral; nenhuma fonte lida identifica quem ateou o fogo. Critério: "falso" se os dados contrariassem as duas partes; "enganoso" se a frase combinasse um elemento verdadeiro (fogo em áreas já desmatadas) com uma atribuição que os dados não sustentam.
Achados
- Fato documentado
Palavras exatas: "onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas." A frase atribui os incêndios a indígenas e a populações tradicionais ("caboclo"), em roçados de subsistência, e situa-os em áreas já desmatadas.
- primáriaFundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) — gov.br, "Política Externa Brasileira - 2020" (publicado em 09/11/2021)fichatrecho após "Nosso agronegócio continua pujante" até "em áreas já desmatadas"
- Fato documentado
De 01/01 a 21/09/2020, 6.465 dos 71.673 focos do bioma Amazônia (9,0%) caíram dentro de polígonos de terras indígenas da FUNAI; no ano de 2020, 8.142 de 103.161 (7,9%). Cerca de 91% dos focos até a data do discurso estavam fora de terras indígenas.
- primáriadataserver-coids.inpe.brficharegistros com bioma = Amazônia; cruzamento feito nesta pesquisa
- primáriageoserver.funai.gov.br (WFS 2.0.0)fichageometrias das 14 páginas da camada tis_poligonais (todas as fases)
- Alegação atribuída
Dado disponível antes do discurso (IPAM, abril de 2020, focos do sensor MODIS/Aqua em 2019 no bioma Amazônia): de 88.611 focos, 31% em propriedades privadas, 21% em assentamentos rurais, 18% em florestas públicas não destinadas, 12% em áreas sem informação cadastral, 7% em terras indígenas, 7% em unidades de conservação e 5% em áreas de proteção ambiental. Segundo a nota, nas propriedades privadas o fogo foi impulsionado principalmente pelo desmatamento e pela limpeza de pastagens, e nas terras públicas, pelo desmatamento para ocupação ilegal.
- Cópia no repositório do Programa Queimadas do INPEfichap. 7 e Anexo 2 (p. 13)
- Alegação atribuída
Confirmação posterior (IPAM, março de 2021): as terras indígenas estiveram entre as categorias com menos focos em 2019 (7% do total) e 2020 (8%), "muito abaixo" de assentamentos, imóveis rurais e florestas públicas não destinadas; o uso do fogo por indígenas é de pequena escala e pouco comum fora da transição com o Cerrado e do lavrado.
- Cópia no repositório do Programa Queimadas do INPEfichap. 1 (introdução e resumo) e p. 3
- Fato documentado
Nota técnica de pesquisadores do INPE e do Cemaden (maio de 2020): o desmatamento explica mais de 80% das ocorrências de queimadas em áreas recém-desmatadas e, de janeiro a maio de 2020, explicou 50% do número de queimadas nos estados amazônicos; o fogo, que ocorre após o desmatamento, é usado para limpar as áreas recém-desmatadas.
- primáriaRepositório de publicações do Programa Queimadas do INPE (dataserver-coids.inpe.br)fichap. 15, "Implicações ambientais"; Figura 6
- Análise editorial
O elemento verdadeiro é que o fogo na Amazônia é ateado por pessoas e ocorre sobretudo em áreas já desmatadas ou convertidas. A atribuição a roçados de subsistência de indígenas e caboclos não é sustentada: as terras indígenas concentravam menos de um décimo dos focos, e os estudos disponíveis na época ligavam o fogo ao desmatamento recente e ao manejo de pastagens, com a maior parte em imóveis rurais, assentamentos e terras públicas não destinadas. As categorias fundiárias não identificam o autor do fogo, e "caboclo" não é categoria de nenhum cadastro.
Sem evidência vinculada — não publicar.
Limitações
O cruzamento com terras indígenas usa a camada atual da FUNAI (todas as fases), não a de 2020; sobreposições e terras criadas depois podem alterar ligeiramente o percentual. As participações por categoria fundiária vêm de estudos do IPAM, organização de pesquisa, com base fundiária própria, e não de série oficial. Foco de calor não identifica autoria nem finalidade do fogo. O texto da fala foi conferido na declaração ligada; o vídeo não foi comparado.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Não foi localizada, nas fontes consultadas, manifestação posterior do autor sobre a afirmação. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.