Checagem · Democracia, eleições e instituições · Desinformação e ataques à imprensa
Em live, em agosto de 2021, Jair Bolsonaro disse que o próprio TSE havia demonstrado que os números das eleições de 2018 podem ter sido fraudados; os documentos do inquérito não mencionam adulteração de votos, e o TSE afirmou o contrário
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Falso
A afirmação atribui ao próprio TSE a demonstração de que os números de 2018 podem ter sido fraudados. Os documentos do inquérito, segundo o exame feito pelo relator no TSE, não mencionam adulteração de votos nem suspeita de fraude; o TSE afirmou o contrário em nota no dia seguinte à live; e o relator da AIJE 0600814-85, cujo voto a maioria seguiu em 30/06/2023, qualificou como "mentira" a leitura feita na live. Não há manifestação do TSE que sustente a afirmação.
A afirmação
“"tá mais do que demonstrado, agora, pelo próprio TSE, que as urnas, né, a... os números das eleições podem ter sido fraudados; podem ter sido manipulados, sim."”
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichap. 104: "tá mais do que demonstrado, agora, pelo próprio TSE, que as urnas"; p. 99: transmissão pela Jovem Pan
Contexto
Na live, Jair Bolsonaro e Filipe Barros apresentaram documentos do inquérito da Polícia Federal nº 1361/2018, aberto a pedido do TSE depois de um ataque hacker à rede do tribunal, e disseram que eles provariam que o TSE sabia que votos poderiam ter sido alterados em 2018. A live foi na véspera da votação da PEC do voto impresso na Comissão Especial da Câmara. O então presidente também disse, na mesma transmissão, que não queria "inventar coisa" e que havia "indícios fortíssimos".
O que foi verificado
Os documentos do TSE que integram o inquérito da PF nº 1361/2018, ou outras manifestações do TSE, demonstram ou admitem que os números das eleições de 2018 podem ter sido fraudados ou manipulados?
Método
Leitura (1) da nota à imprensa do TSE de 05/08/2021, divulgada no dia seguinte à live; (2) da página "Fato ou Boato" do TSE de 12/08/2021; (3) do voto oral do relator da AIJE 0600814-85, que examinou os documentos do inquérito requisitados nos autos (pp. 59–66 e 99–109). O inquérito está sob sigilo e não foi consultado diretamente. Critério: a afirmação é falsa se os documentos citados não contêm a admissão atribuída ao TSE e se o TSE afirmou o contrário.
Achados
- Fato documentado
Em nota de 05/08/2021, o TSE afirmou que o acesso indevido investigado "não representou qualquer risco à integridade das eleições de 2018", que as urnas "jamais entram em rede" e que a investigação nunca lhe comunicou "qualquer elemento indicativo de fraude".
- primáriatse.jus.brfichaitens 2, 4 e 5
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE), seguido pela maioria em 30/06/2023
Segundo o voto do relator na AIJE 0600814-85, que examinou cópia integral do inquérito, a portaria de instauração (08/11/2018) trata de "suposta invasão a sistemas e bancos de dados do TSE", sem referência a suspeita de fraude eleitoral, e a Informação nº 32 da Secretaria de Tecnologia da Informação do TSE "não menciona em ponto algum a possibilidade de que tenha havido adulteração de votos na urna eletrônica ou interferência no sistema de totalização".
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichapp. 61–63, itens a) a g) e conclusão "não há nenhum indicativo de manipulação de votos"
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE)
O mesmo voto registra que a Polícia Federal documentou a forma, a motivação (financeira) e a autoria do ataque, e que o hacker escolheu o TSE "com fins inteiramente desconectados do propósito de interferir nas eleições".
- Decisão judicial · voto do relator na AIJE 0600814-85 (TSE)
Sobre a live de 04/08/2021, o relator escreveu que a "tradução" de que o hacker poderia fazer "ao se digitar o algarismo 1" o voto virar 13 "é mentira", porque o relato do acesso ao código-fonte e a senhas de oficialização não autoriza dizer que votos foram ou poderiam ser manipulados em 2018.
- primáriaCópia publicada pelo Poder360 (static.poder360.com.br), vinculada na reportagem "Relator vota para tornar Bolsonaro inelegível por 8 anos"fichap. 108: "Isso é mentira. O relato do acesso ao código-fonte e senhas de oficialização em momento algum autorizam"
- Fato documentado
Na página "Fato ou Boato" de 12/08/2021, o TSE afirmou que não há fraude comprovada nas eleições de 2018 e que, a pedido do PSL, peritos da PF e do partido auditaram urnas usadas no 1º turno em Curitiba e concluíram não ter havido fraude.
- primáriatse.jus.brfichaseção "História de segurança", §§ 1–2
Limitações
O inquérito nº 1361/2018 (hoje Inquérito nº 5.007.377-27, segundo o voto) está sob sigilo e não foi consultado; os achados v2 a v4 dependem do exame feito pelo relator, lido em cópia do voto oral republicada pelo Poder360, e o voto escrito de 382 páginas não foi lido. O TSE é parte interessada no debate sobre o sistema que administra; por isso as notas v1 e v5 são citadas como manifestação do TSE, não como prova independente. A fala foi lida na transcrição do TSE; o vídeo original não foi consultado. Não foram consultadas checagens de agências.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Procurada, em 14/10/2026, no voto oral do relator e nas notas do TSE: não foi localizada manifestação de Jair Bolsonaro sobre esta afirmação específica. Na própria live, segundo a transcrição do TSE, ele disse "Eu não quero inventar coisa aqui, mas são indícios fortíssimos". Os argumentos da defesa na AIJE não foram lidos. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.