Estudo de impacto · Pandemia, saúde pública e vacinação · vacinação · saúde
Estimativa contrafactual: casos graves e mortes por covid-19 evitados no primeiro ano da campanha nacional de vacinação (2021–jan. 2022)
Cleber Vinicius Brito dos Santos, Tatiana Guimarães de Noronha, Guilherme Loureiro Werneck, Claudio José Struchiner e Daniel Antunes Maciel Villela (2022). Artigo revisado por pares.
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Modelagem ou simulação. Estima o que aconteceria em outro cenário, sob hipóteses e parâmetros do modelo. Cenário estimado não é efeito demonstrado nem valor observado.
O que o estudo examina
- Decisão ou política
- Campanha nacional de vacinação contra covid-19 iniciada em 17/01/2021, coordenada pelo Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde e executada no SUS por estados e municípios. O estudo avalia a campanha como um todo; não separa a contribuição de cada esfera de governo nem de decisões específicas.
- Resultado estudado
- Casos graves (internação com confirmação laboratorial) e óbitos por covid-19 em adultos de 20 anos ou mais.
- Período
- 17/01/2021 a 31/01/2022.
- População ou unidade
- Pessoas de 20 anos ou mais, Brasil; também por 27 UFs e 5.569 municípios.
Método
Estudo ecológico com dados observacionais retrospectivos: SI-PNI e SIVEP-Gripe ligados probabilisticamente pelo Ministério da Saúde, e população do IBGE. Para cada dia e faixa etária (8 faixas), a diferença de taxas entre não vacinados e vacinados (ao menos uma dose, esquema completo, reforço) é multiplicada pela população suscetível vacinada; a taxa dos não vacinados serve de contrafactual. Estratificação só por data e idade; não há estratégia de identificação quase-experimental.
Modelagem: o que foi observado e o que foi estimado
- Resultados observados
- Registros do SI-PNI e do SIVEP-Gripe ligados probabilisticamente pelo Ministério da Saúde, e população do IBGE. Observado: 1.169.972 casos graves e 369.034 óbitos por covid-19 em 2021 entre pessoas de 20 anos ou mais; ao fim do primeiro ano, mais de 91% (cerca de 137 milhões) dessa população com ao menos uma dose, 85% com esquema completo e 29% com reforço; mais de 99% dos maiores de 60 anos com ao menos uma dose ao fim de 2021. Também são observadas as taxas diárias de casos graves e óbitos por faixa etária em vacinados e não vacinados.
- Cenários estimados pelo modelo
- Casos e óbitos que teriam ocorrido entre os vacinados se tivessem a taxa dos não vacinados da mesma faixa e do mesmo dia: 875.846 casos graves e 303.129 óbitos evitados; 187.890 dos óbitos evitados entre maiores de 60 anos. Repetido por UF e por município (material suplementar, não lido).
- Hipóteses
- Contrafactual pelo método de Haas: sem vacina, os vacinados teriam a mesma taxa diária dos não vacinados da mesma faixa etária; a confusão é controlada só por data e idade (sem dados de condição socioeconômica, comorbidades, testagem ou prevenção). Status vacinal corretamente atribuído pela ligação probabilística; desfechos com início de sintomas até 14 dias após a dose excluídos; sem efeitos indiretos (transmissão) e sem distinção por variante ou sexo.
- Parâmetros
- Sem parâmetros calibrados: as quantidades são calculadas dos dados (população suscetível diária por faixa = população do IBGE menos casos novos; pessoas-dia por grupo vacinal; taxas e diferenças de taxas com IC 95%). Escolhas assumidas: 8 faixas etárias, definição de "ao menos parcialmente vacinado", janela de 14 dias e regras de exclusão de registros inconsistentes (Methods).
- Validação
- Não informada. O texto não apresenta validação fora da amostra nem comparação com um resultado observado independente; os autores comparam o sentido com a eficácia mostrada em ensaios e coortes e apresentam o resultado como limite inferior.
- Incerteza
- IC 95% derivados das diferenças de taxas: óbitos evitados 284.019–321.681; casos graves 843.383–915.709. Não incluem a incerteza da ligação de bases, da confusão não controlada nem da hipótese contrafactual.
- Limites de extrapolação
- Vale para a campanha como um todo (SUS, com estados e municípios) e para adultos de 20 anos ou mais no período. Não separa o papel de decisões federais específicas, não estima o efeito de antecipar ou atrasar a compra de vacinas e não deve ser somado nem comparado diretamente ao de Ferreira et al.
Estimativa e incerteza
Cenário contrafactual estimado (não contagem observada): 303.129 óbitos e 875.846 casos graves evitados entre pessoas ao menos parcialmente vacinadas, de 17/01/2021 a 31/01/2022, supondo que os vacinados teriam tido a taxa dos não vacinados da mesma idade e do mesmo dia. Observado em 2021 nessa população: 369.034 óbitos e 1.169.972 casos graves; os evitados equivalem a cerca de 82% e 74% a mais que esses números. Maiores de 60 anos: 61% das mortes evitadas (187.890), também estimadas.
Limitações
- Confusão não controlada: sem dados de condição socioeconômica, comorbidades, testagem, busca por atendimento e medidas de prevenção, que podem diferir entre vacinados e não vacinados (limitação declarada).
- Não inclui efeitos indiretos da vacinação; os autores apresentam o resultado como limite inferior.
- Sem análise por variante e sem estratificação por sexo.
- O resultado favorável é da campanha no SUS como um todo; atribuí-lo só ao governo federal seria indevido.
- Os autores citam, como possíveis causas do ritmo mais lento que o da vacinação de H1N1 em 2009, o subfinanciamento do SUS, "the delay in vaccine acquisition" e a desinformação, mas não estimam o efeito de nenhuma delas.
- O sentido "melhora" é o do cenário estimado; coincide com a eficácia mostrada em ensaios e coortes, que os autores citam, mas a magnitude é estimativa sob a hipótese contrafactual, não efeito demonstrado da campanha nem de decisões do governo federal.
Evidências divergentes
Ferreira et al. (2022) estimam 58.644 óbitos evitados entre maiores de 60 anos de janeiro a agosto de 2021, com modelo bayesiano que mede só efeitos diretos. Período, população e método diferem: não comparar diretamente nem somar.
Referência e trechos
Santos CVB, Noronha TG, Werneck GL, Struchiner CJ, Villela DAM. "Estimated COVID-19 severe cases and deaths averted in the first year of the vaccination campaign in Brazil: a retrospective observational study". The Lancet Regional Health – Americas, 17, 100418, 2023 (online em 22/12/2022). DOI 10.1016/j.lana.2022.100418 — acessar
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaSummary (Findings): 74% (n = 875.846; IC 95% 843.383–915.709) dos casos graves e 82% (n = 303.129; IC 95% 284.019–321.681) das mortes
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaMethods (Study design, population, and data source: "ecological study using retrospective observational data")
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaResults e Table 1 (totais observados em 2021, mortes evitadas por faixa etária)
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaDiscussion (limitações; ritmo comparado com H1N1 2009; "the delay in vaccine acquisition")
- The Lancet Regional Health – Americas (texto integral via PubMed Central / Europe PMC, PMC9779315)fichaMethods (Statistical analysis: passos de Haas; população suscetível, pessoas-dia, diferenças de taxas)
Indicadores relacionados
Lacunas
- O BMJ Open (2024), localizado por busca, estima 59.618 mortes evitadas em internados de 20 anos ou mais em 2021: não lido, por isso não registrado como evidência.