Checagem · Meio ambiente, desmatamento e povos indígenas · Relações internacionais e diplomacia
Na ONU, Jair Bolsonaro disse que os incêndios na Amazônia acontecem "no entorno leste da Floresta"; em 2020, até a data do discurso, 42% dos focos do bioma estavam no Amazonas, em Rondônia, no Acre e em Roraima
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Enganoso
A frase tem um elemento verdadeiro e induz a uma leitura errada da distribuição do fogo. É verdade que os focos se concentram nas bordas da floresta e que o Pará, a leste, liderou: de 1º de janeiro a 21 de setembro de 2020, teve 33,6% dos 71.673 focos detectados pelo INPE no bioma Amazônia, e Mato Grosso, ao sul, 22,1%. Mas 42,2% dos focos estavam no Amazonas (20,2%), em Rondônia, no Acre e em Roraima, a oeste e ao norte; os estados do leste (Pará, Maranhão, Tocantins e Amapá) somaram 35,7%. Os incêndios não estavam restritos a um "entorno leste". A afirmação de que ocorrem "nos mesmos lugares" a cada ano não foi verificada.
A afirmação
“Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta”
- primáriaFundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) — gov.br, "Política Externa Brasileira - 2020" (publicado em 09/11/2021)fichatrecho após "Nosso agronegócio continua pujante" até "em áreas já desmatadas"
Contexto
Discurso de abertura do Debate Geral da 75ª Assembleia Geral da ONU, 22/09/2020, na época de maior número de focos de queimada do ano. Depois de dizer que o país é vítima de "uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal", o presidente afirma: "Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas." Em seguida trata do combate aos focos e das queimadas no Pantanal. A passagem contém três alegações verificáveis, separadas em três checagens: a de que o fogo não se propaga no interior da floresta (chk-jair-2020-09-22-onu-floresta-umida-fogo-interior), a localização dos incêndios no "entorno leste" (chk-jair-2020-09-22-onu-incendios-entorno-leste) e a autoria e o tipo de área (chk-jair-2020-09-22-onu-incendios-caboclo-indio).
O que foi verificado
Em 2020, até a data do discurso, os focos de queimada no bioma Amazônia estavam concentrados no leste da floresta?
Método
(1) Delimitação da frase no texto oficial (FUNAG), conferido na declaração ligada. (2) Dados oficiais: arquivo anual de focos do satélite de referência do INPE para 2020 (Programa Queimadas), filtrado para o bioma Amazônia; contagem por estado de 01/01 a 21/09/2020 (dados disponíveis na véspera do discurso) e no ano inteiro (script scratchpad/lote6-checagens/scripts/focos-2020.mjs; arquivo em dados/brutos/chk-jair-2020-09-22-onu-incendios-caboclo-indio/). (3) Contexto: distribuição por estado das cicatrizes de incêndio florestal do DETER em 2020. "Entorno leste" não tem definição oficial; os estados foram agrupados em leste (Pará, Maranhão, Tocantins, Amapá), sul-sudeste (Mato Grosso) e oeste e norte (Amazonas, Rondônia, Acre, Roraima). A recorrência nos "mesmos lugares" de ano para ano não foi analisada. Critério: "verdadeiro" se os focos estivessem predominantemente no leste; "enganoso" se a concentração existisse só em parte.
Achados
- Fato documentado
Palavras exatas: "Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da Floresta". A frase não define "entorno leste" nem indica fonte.
- primáriaFundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) — gov.br, "Política Externa Brasileira - 2020" (publicado em 09/11/2021)fichatrecho após "Nosso agronegócio continua pujante" até "em áreas já desmatadas"
- Fato documentado
De 01/01 a 21/09/2020, o satélite de referência do INPE detectou 71.673 focos no bioma Amazônia: Pará, 24.085 (33,6%); Mato Grosso, 15.823 (22,1%); Amazonas, 14.512 (20,2%); Rondônia, 7.336 (10,2%); Acre, 6.728 (9,4%); Roraima, 1.704 (2,4%); Maranhão, 1.006 (1,4%); Tocantins, 412 (0,6%); Amapá, 67 (0,1%). Somados, Amazonas, Rondônia, Acre e Roraima tiveram 42,2% dos focos; Pará, Maranhão, Tocantins e Amapá, 35,7%.
- primáriadataserver-coids.inpe.brficharegistros com bioma = Amazônia e data_pas até 2020-09-21, por estado; contagem feita nesta pesquisa
- Fato documentado
No ano de 2020, foram 103.161 focos no bioma: Pará, 37,4%; Mato Grosso, 20,0%; Amazonas, 16,2%; Rondônia, 10,8%; Acre, 8,9%; Maranhão, 3,5%; Roraima, 1,9%; Amapá, 0,7%; Tocantins, 0,6%.
- primáriadataserver-coids.inpe.brficharegistros com bioma = Amazônia em 2020, por estado; contagem feita nesta pesquisa
- Fato documentado
As cicatrizes de incêndio florestal registradas pelo DETER em 2020 (15.172,6 km²) concentraram-se em Mato Grosso (10.695 km²) e no Pará (3.936 km²).
- primáriaTerraBrasilis — DETER (atualizado até 02/10/2026)fichafeatures com cl = CICATRIZ_DE_QUEIMADA, y = 20, por uf; somas feitas nesta pesquisa
- Análise editorial
Há concentração nas bordas da floresta: o Pará, a leste, teve a maior parte dos focos, e Mato Grosso, ao sul, a maior parte dos incêndios florestais. Mas a frase indica um único "entorno leste", e quatro de cada dez focos do bioma até a data do discurso estavam em estados do oeste e do norte; só o Amazonas teve um quinto do total.
Sem evidência vinculada — não publicar.
Limitações
"Entorno leste" não tem definição oficial; o agrupamento por estado é uma aproximação e não segue os limites do bioma dentro de cada estado. Foco de calor indica fogo ativo detectado pelo satélite de referência, não área queimada. O arquivo de focos é o atual (2023); os números divulgados em setembro de 2020 podem diferir ligeiramente. Não foi feita análise espacial da recorrência ao longo dos anos. O texto da fala foi conferido na declaração ligada; o vídeo não foi comparado.
Resposta do autor
- Resposta não localizada na pesquisa
Não foi localizada, nas fontes consultadas, manifestação posterior do autor sobre a afirmação. Nenhum pedido de manifestação foi enviado.