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Extrema pobreza e pobreza (linhas do Banco Mundial), 2012–2024
A extrema pobreza caiu de 7,37% (2019) para 6,05% (2020), ano do auxílio emergencial, e subiu para 9,02% em 2021, maior valor da série, após a redução do auxílio; voltou a 5,87% em 2022. A pobreza seguiu o mesmo desenho (32,61%, 31,06%, 36,77% e 31,65%). No exercício do IBGE sem benefícios sociais, a extrema pobreza de 2020 seria de 13,50%. A melhora de 2020 foi temporária e dependeu de transferências aprovadas pelo Congresso e executadas pelo Executivo.
Registro em revisão de fontes; não publicado.
Pergunta
Como variou a proporção de pessoas abaixo das linhas de US$ 2,15 e de US$ 6,85 PPC 2017 por dia em 2019–2022, e quanto dessa variação aparece no exercício do IBGE que retira os benefícios sociais da renda?
- Extrema pobreza: menos de US$ 2,15 PPC 2017/dia
- Pobreza: menos de US$ 6,85 PPC 2017/dia
- Extrema pobreza — exercício simulado sem benefícios sociais
- Pobreza — exercício simulado sem benefícios sociais
- período 2019–2022
Fonte: IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2025, Tabelas 2.18 e 2.20 (PNAD Contínua anual, 1ª visita). Unidade: % da população com rendimento domiciliar per capita abaixo de US$ 2,15 e de US$ 6,85 PPC 2017 por dia, Brasil, 2012–2024. Linhas tracejadas: exercício simulado do IBGE sem benefícios de programas sociais (Bolsa Família, BPC, auxílio emergencial e outros) — estimativa estática, não observação. Faixa destacada: 2019–2022.
Tabela com os valores (13 períodos)
| Período | Extrema pobreza: menos de US$ 2,15 PPC 2017/dia | Pobreza: menos de US$ 6,85 PPC 2017/dia | Extrema pobreza — exercício simulado sem benefícios sociais | Pobreza — exercício simulado sem benefícios sociais |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | 6,59 | 34,73 | 9,49 | 36,51 |
| 2013 | 5,84 | 32,48 | 8,85 | 34,46 |
| 2014 | 5,19 | 30,88 | 8,1 | 32,97 |
| 2015 | 5,65 | 31,72 | 8,54 | 33,78 |
| 2016 | 6,74 | 33,75 | 9,71 | 35,66 |
| 2017 | 7,3 | 33,79 | 10,25 | 35,68 |
| 2018 | 7,38 | 33,44 | 10,39 | 35,38 |
| 2019 | 7,37 | 32,61 | 10,21 | 34,77 |
| 2020 | 6,05 | 31,06 | 13,5 | 39,04 |
| 2021 | 9,02 | 36,77 | 12,87 | 39,72 |
| 2022 | 5,87 | 31,65 | 10,64 | 35,46 |
| 2023 | 4,4 | 27,3 | 11,12 | 32,33 |
| 2024 | 3,47 | 23,11 | 10,05 | 28,65 |
O que os dados mostram
- Fato documentado
A extrema pobreza (menos de US$ 2,15 PPC 2017/dia) foi de 7,37% em 2019, 6,05% em 2020, 9,02% em 2021 e 5,87% em 2022. O valor de 2021 é o maior da série 2012–2024.
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2019 a 2022, linha "Brasil", coluna "Menos de US$ 2,15 PPC 2017"; abas 2012 a 2024 para o máximo
- Fato documentado
A pobreza (menos de US$ 6,85 PPC 2017/dia) foi de 32,61% em 2019, 31,06% em 2020, 36,77% em 2021 (maior valor da série) e 31,65% em 2022.
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2019 a 2022, linha "Brasil", coluna "Menos de US$ 6,85 PPC 2017"
- Fato documentado
Melhora documentada e temporária: em 2020, ano do auxílio emergencial de R$ 600, a extrema pobreza caiu 1,32 ponto percentual em relação a 2019; em 2021 — depois do fim do auxílio residual, previsto até 31/12/2020 (MP 1.000/2020), e com o Auxílio Emergencial 2021 de R$ 150 a R$ 375 instituído em março (MP 1.039/2021) — subiu 2,97 pontos em relação a 2020.
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2019, 2020 e 2021, linha "Brasil", coluna US$ 2,15
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 2º, caput
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º, caput
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º, caput; art. 2º, §§ 1º e 2º
- Fato documentado
No exercício simulado do IBGE sem benefícios de programas sociais, a extrema pobreza de 2020 seria de 13,50%, contra 6,05% observados (diferença de 7,45 pontos); em 2019 a diferença era de 2,84 pontos (10,21% contra 7,37%) e, em 2021, de 3,85 pontos (12,87% contra 9,02%).
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2019, 2020 e 2021, linha "Brasil", coluna US$ 2,15
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2019, 2020 e 2021, linha "Brasil", coluna US$ 2,15
- Análise editorial
A diferença entre a pobreza observada e a simulada sem benefícios foi maior em 2020 (7,45 pontos na extrema pobreza) do que em qualquer outro ano de 2012–2024, o que é compatível com o peso do auxílio emergencial na renda das famílias mais pobres. Como o exercício é uma simulação estática, essa diferença não é medida causal do efeito do programa.
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2012 a 2024, linha "Brasil", coluna US$ 2,15
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2012 a 2024, linha "Brasil", coluna US$ 2,15
- Fato documentado
Em 2022, a extrema pobreza (5,87%) ficou abaixo da de 2018 (7,38%) e de 2019 (7,37%); a pobreza (31,65%) ficou abaixo da de 2018 (33,44%).
- primáriaIBGE — FTP, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (tabelas em .ods)fichaabas 2018, 2019 e 2022, linha "Brasil", colunas US$ 2,15 e US$ 6,85
Contexto
Antes de 2019: A extrema pobreza caiu de 6,59% (2012) para 5,19% (2014), subiu com a recessão até 7,30% (2017) e 7,38% (2018). A pobreza passou de 34,73% (2012) a 30,88% (2014) e a 33,44% (2018). Esses movimentos antecedem 2019 e não são atribuídos ao governo Bolsonaro.
Depois de 2022: Depois de 2022, as duas taxas caíram para os menores valores da série: extrema pobreza de 4,40% (2023) e 3,47% (2024); pobreza de 27,30% e 23,11%. Esses resultados não são atribuídos ao governo Bolsonaro.
Decisões e fatores relacionados
- Congresso
O Congresso aprovou e o Presidente sancionou a Lei 13.982/2020, que instituiu o auxílio emergencial de R$ 600 mensais por três meses a trabalhadores que cumprissem os requisitos legais.
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichapreâmbulo ("o Congresso Nacional decreta e eu sanciono") e art. 2º, caput
- Executivo federal
O Executivo federal prorrogou o auxílio emergencial por dois meses (Decreto 10.412/2020).
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 9º-A acrescentado ao Decreto 10.316/2020
- Executivo federal
O Executivo federal instituiu, por medida provisória, o auxílio emergencial residual de até quatro parcelas de R$ 300 até 31/12/2020 (MP 1.000/2020).
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º, caput
- Congresso
O Congresso promulgou a EC 109/2021, que permitiu o auxílio emergencial de 2021 fora da meta de resultado primário e do teto de gastos, até R$ 44 bilhões.
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 3º, caput e § 1º
- Executivo federal
O Executivo federal instituiu o Auxílio Emergencial 2021 por medida provisória: quatro parcelas de R$ 250 (R$ 375 para mulher provedora de família monoparental; R$ 150 para família unipessoal), limitado a um beneficiário por família.
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º, caput; art. 2º, caput e §§ 1º e 2º
- Congresso
O Congresso promulgou a EC 114/2021, que incluiu na Constituição o direito a uma renda básica familiar para pessoas em vulnerabilidade e destinou o espaço fiscal do novo limite de precatórios ao programa de transferência de renda.
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º (CF, art. 6º, parágrafo único); ADCT, art. 107-A, caput
- Congresso
O Congresso promulgou a EC 123/2022, que reconheceu estado de emergência em 2022 e concedeu acréscimo de R$ 200 mensais às famílias do Auxílio Brasil de agosto a dezembro de 2022, até R$ 26 bilhões.
- primáriaPlanalto — LegislaçãofichaADCT, art. 120; art. 5º, I
- Fator externo
Pandemia de covid-19, com calamidade pública reconhecida pelo Congresso em 2020 a pedido do Presidente.
- primáriaPlanalto — Legislaçãofichaart. 1º
Associação e causalidade
A coincidência entre o auxílio emergencial de 2020 e a queda da pobreza, e entre a redução do auxílio em 2021 e a alta, é associação temporal reforçada pelo exercício do IBGE sem benefícios. Esse exercício é contábil: retira o benefício da renda e não considera que, sem ele, as pessoas poderiam ter trabalhado mais ou recebido ajuda de outras fontes. Não foi lido nesta etapa estudo com método de identificação causal sobre o efeito do auxílio na pobreza. As decisões tiveram mais de um ator: o auxílio de R$ 600 foi instituído por lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo Presidente; as prorrogações, o auxílio residual e o auxílio de 2021 vieram de atos do Executivo, este último autorizado por emenda constitucional promulgada pelo Congresso. Não se atribui o resultado a um único ator.
Outras explicações possíveis
- Mercado de trabalho: a alta da desocupação em 2020–2021 e a retomada em 2022 alteram a renda do trabalho dos mais pobres.
- Inflação alta em 2021 (IPCA de 10,06%) reduz o poder de compra; como as linhas são atualizadas pelo IPCA, rendas nominais estáveis ficam mais perto ou abaixo da linha.
- Expansão do Auxílio Brasil em 2022 (inclusive o acréscimo de R$ 200 de agosto a dezembro) e retomada do emprego podem explicar a queda de 2022; a decomposição não foi feita aqui.
- Coleta por telefone em 2020–2021, com taxa de resposta menor, pode afetar a medição da renda dos mais pobres.
Método
Fontes e séries
IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 2025 (SIS 2025), tabelas em formato .ods do pacote "2_Distribuicao_Renda". Tabela 2.18 (Pobr_Geo): proporção de pessoas com rendimento domiciliar per capita abaixo de US$ 2,15, US$ 3,65 e US$ 6,85 PPC 2017 por dia, Brasil, 2012–2024 (uma aba por ano). Tabela 2.20 (Pobr_Geo_sbenef): o mesmo cálculo num exercício simulado sem os benefícios de programas sociais governamentais. Base: PNAD Contínua anual, acumulado de primeiras visitas.
Metodologia
Linhas do Banco Mundial: US$ 2,15 por pessoa por dia (extrema pobreza) e US$ 6,85 (pobreza, linha para países de renda média-alta), em paridade de poder de compra (PPC) de 2017. O IBGE converte com R$ 2,3273771 por US$ 1,00 PPC 2017, transforma os valores diários em mensais e os atualiza pelo IPCA (notas da Tabela 2.18). A renda é o rendimento domiciliar per capita, com todos os rendimentos (inclusive benefícios); excluem-se pensionistas, empregados domésticos e seus parentes. O exercício "sem benefícios" (Tabela 2.20) retira da renda o Bolsa Família, o BPC, o auxílio emergencial e outros programas sociais, mantendo o resto igual; é simulação estática, não estimativa de causalidade. O script lê a linha "Brasil" de cada aba anual e arredonda a 2 casas. A série não mede pobreza multidimensional, insegurança alimentar nem a renda de quem não está na amostra (população em situação de rua, por exemplo).
Revisões e quebras da série
A SIS 2025 refaz a série 2012–2024 com a metodologia e a ponderação vigentes; valores de edições anteriores da SIS podem diferir. Em 2020–2021, a PNAD Contínua foi coletada por telefone, com taxa de resposta menor. O Banco Mundial divulgou em 2025 linhas em PPC 2021; as tabelas do IBGE no SIDRA para os indicadores ODS 1.1.1 e 1.2.1 (Tabelas 5817 e 5877) trazem valores diferentes dos da SIS 2025, possivelmente por usarem outras linhas, o que não foi conferido nesta etapa. Esta análise usa só as linhas em PPC 2017 da SIS 2025, comparáveis de 2012 a 2024.
Valores nominais e reais
As linhas são valores reais fixos em US$ PPC 2017, convertidos em reais e atualizados pelo IPCA pelo IBGE; os rendimentos estão em reais médios de cada ano. Por isso, a proporção é comparável entre anos sem deflator adicional.
Limitações
- As linhas do Banco Mundial em PPC 2017 são convenções internacionais; o Brasil não tem linha oficial de pobreza.
- A SIS usa o acumulado de primeiras visitas da PNAD Contínua; rendimentos de benefícios podem ser subdeclarados.
- O exercício sem benefícios é simulação estática do IBGE, sem efeitos comportamentais.
- Não foram conferidas as tabelas do SIDRA para os indicadores ODS (5817 e 5877), que trazem valores diferentes.
- Os valores pagos e o número de beneficiários do auxílio não foram levantados nesta análise.
Estudos relacionados
- Auxílio Emergencial de 2020, pobreza e participação no trabalho na PNAD Covid-19 (cenário contábil e efeitos fixos, sem identificação causal)
- Elevação do piso do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 (agosto de 2022) e participação no trabalho, horas e formalidade (associação estimada, sem identificação causal sustentada)
- Pobreza observada com o Auxílio Emergencial em 2020 e cenário contábil sem ele (simulação estática do Ipea) cenário de modelo
Lacunas
- Linhas usadas nas Tabelas 5817 e 5877 do SIDRA (indicadores ODS), cujos valores diferem dos da SIS 2025.
- Valores pagos e número de beneficiários do auxílio emergencial por ano (Portal da Transparência ou Ministério da Cidadania).
- Tramitação da Lei 13.982/2020 e papel do Executivo e do Congresso na definição do valor de R$ 600 (não conferidos em fonte primária nesta etapa).
Pendências (só na prévia)
- Procurar estudo com método identificado sobre o efeito do auxílio emergencial na pobreza (por exemplo, Ipea ou trabalhos acadêmicos revisados).